terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Eu amo Carnaval!

Eu amo Carnaval!
Eu nasci em 19 de março de 1958, nesse ano a terça-feira de carnaval caiu no dia 18 de fevereiro, portanto eu já estava entrando no 9º mês, quando os meus órgãos e sentidos já estavam formados, e se eu perguntar à minha mãe, com certeza ela vai dizer que, mesmo com o barrigão, pulou os 4 dias de carnaval. As marchinhas dos antigos carnavais, ouvidas nos rádios de pilhas, foram as minhas primeiras canções, elas eram lançadas em dezembro e tocadas até o carnaval.
Ainda na cavidade uterina, devo ter ouvido muito, “ Ô abre alas que eu quero passar!...” (1899 – Chiquinha Gonzaga), e já estava pronto sair daquele “lugarzinho” apertado, úmido e de cabeça para baixo. “ Mamãe eu quero, mamãe eu quero...mamãe eu quero mamar!...” ( 1937 – Jararaca e Vicente Paiva, sucesso com Carmem Miranda, 1941), não aguentava mais ser alimentado através do cordão umbilical, já queria “ por a boca”, no prazer, experimentar as doçuras dos sentidos, paladar e tato. “ Ôôôô, Aurora...Veja só que bom que era...Ôôôô, Aurora!” ( 1941 – Mario Lago), bom, não me lembro de quem foi Aurora, mas vejam só que bom que era, alguma coisa aconteceu entre nós, devo ter pulado muito na barriga da Maria José, minha mãe (depois vou falar dela), ouvindo essa marchinha que pregou em meus ouvidos e até hoje canto Aurora.
“ Você pensa que cachaça é água? Cachaça não é água não...” ( 1953 – M. Pinheiro, L. Castro e H. Lobato), com essa balancei, pulei, dancei, dormi, acordei, escutando, é a mais marcante, mais executada nos salões, nas ruas, nos rádios, provavelmente deixei o leite para experimentar essa tão cantada água ardente nos meus primeiros carnavais, que até hoje não larguei, não existe carnaval sem uma boa cachaça! “ Chegou, a turma do funil!...” ( 1956 – Mirabeau, M.de Oliveira e Urgel de Castro), essa marchinha deu o sentido à folia e à cachaça, eu ainda espremido no útero entendi o porque de tanta gente se agrupar, formar blocos, fazer a festa mais animada, claro, com todo mundo de cabeça feita. Cachaça que se bebe só é tombo na certa e carnaval sem amigos é mais um louco perdido na multidão. “...Todo mundo bebe mas ninguém dorme no ponto...nós é que bebemos e eles que ficam tontos. Morou?...” Foi nesse ambiente festivo que passei o nono mês aguardando para vir a este mundão de Deus. Meus primeiros acordes, os primeiros arranjos que ouvi vêm dessas composições tocadas e cantadas no carnaval de 1958 às vésperas de, eu nascer, as ouvi tantas, mas tantas vezes que meu DNA deve conter alguma molécula dessa enorme e contagiante festa popular. Só pode, eu amo carnaval!
Teve época de solteiro e algumas vezes já casado, que eu planejava férias, juntava dinheiro, organizava minha vida só para brincar com tranquilidade todos os dias do reinado de Momo. Gosto sim, e muito, do carnaval. Como eu disse, está no meu DNA, Roldão (in memóriam) e Maria José, meus pais, deveriam receber uma homenagem pública na pequena cidade de Barão de Melgaço, portal de entrada do pantanal mato-grossense, nossa terra natal, como o casal de foliões mais animados, mais festivos daquela região. Merecem uma rua, ou praça, ou alguma outra coisa qualquer com seus nomes, ou uma estátua na principal.avenida onde desfilam os cordões e blocos carnavalescos, pela contribuição que deram as festas de carnavais durante toda sua vida. Ele foi um dos primeiros músicos do ainda distrito de Melgaço. Autodidata, de ouvido absoluto, aprendeu ainda jovem a tocar violão e cavaquinho, era ao lado de outros amigos, também dotados de habilidades musicais, que faziam as serestas, acompanhavam os apaixonados em suas românticas serenatas, animavam os bailes da cidade e os carnavais de ruas e clube. Roldão Taques, o irreverente “ Dão” ou “Dãozinho” como era carinhosamente chamado por todos, sempre foi a primeira referência quando se falava em bons músicos. Formou grupos, fez blocos de carnaval, tocou em grandes festas no município e na capital , Cuiabá, compôs arranjos, ensinou, fantasiou, dançou e viveu uma vida dedicado à musica, ao seu cavaquinho e ao seu violão. Qualquer encontro de amigos e família, lá estava ele com seus precisos acordes para que os “cantores” de plantão fizessem a festa. Só não podia cometer o crime de desafinar numa nota que ele parava no meio da música. Era implacável! Hoje seus instrumentos estão empoeirados, em silêncio, servindo de decoração e lembranças. Roldãozinho se foi aos 84 anos ( 21/08/1935 a 27/06/2017), deixando um grande vazio nos nossos encontros musicais. Partiu para uma nova vida, com certeza será maestro lá no céu. mas seus dedos ainda estavam firmes e ágeis deslizando suavemente entre as casas dos braços dos violões.
Mas ninguém chega tão longe sozinho e, ao lado de um grande Homem, tem sempre uma animada e grande Mulher. Roldão e Maria José, se conheceram e casaram ainda muito jovens, ele com 22 e ela com 16 anos. Eu acho que nasci prematuro, porque com 6 meses de casados eles já eram pais, casaram rapidamente sob ordem do meu avô materno, nem deu tempo de preparar enxoval e o vestido de noiva teve que passar por uns ajustes de última hora com o aperto na barriga. Viveram intensamente juntos durante 60 anos. Foram parceiros e amigos. Tudo começou com a música, “Dãozinho”, jovem, bonito, tocador de violão, encantou a sua musa com lindas serenatas embaixo de suas janelas. Ela ainda mais bela e formosa se rendeu aos encantos do seresteiro. Maria José tinha uma facilidade incrível de decorar letras de músicas, uma enciclopédia musical ambulante, gostava de acompanhar o violeiro em todos os cantos. Quando, em dezembro, os rádios começavam a tocar as músicas de carnaval com os lançamentos, era a primeira a aprender para ensinar e cantar para o namorado. Casados continuaram a encontrar na música um sentido para viver com alegria. A primeira e maior paixão da vida dela era o artista, seu violeiro e cantador, depois o carnaval. Muito ciumenta, seu maior rival era o violão, tinha tanto ciúme dos instrumentos que chegou a quebrar um, mas logo se arrependeu e comprou um novo e deu de presente. Maria gosta tanto de carnaval que até hoje ainda fica arrepia quando ouve uma marchinha das antigas. Mãe de 7 filhos, eu o mais velho, sempre nos fantasiou para brincar os carnavais. Nos bailes de clube, lá em Barão de Melgaço, quando chegava a turma do Roldão e Maria a conversa era outra...o salão lotava, contagiava quem estivesse parado, os músicos empolgavam com a nossa turma e executavam as mais animadas marchinhas. Mamãe agregava, eram os filhos, noras, genros, sobrinhos, primos ... todo mundo. Nossa casa em Barão de Melgaço, virava um galpão, costureiras, cozinheiras, vizinhos, fofoqueiras, cachaceiros, desocupados e crianças a dar com pau, viviam amontoados pelos cômodos aguardando chegar a hora da folia e a turma do Roldão e Maria sair para animar o carnaval. Mamãe já caiu de carroceria de caminhonete brincando carnaval de rua e seu maior castigo é não poder brincar o carnaval. Hoje aos 76 anos, operada dos joelhos, não tem mais forças nas pernas, mas as mãos com os indicadores em riste, balançam pra cima e para baixo ouvindo suas canções preferidas.
Agora deu pra entender minha paixão pelo carnaval? Se não, olha só o meu currículo carnavalesco: eu sei e canto todas as marchas e sambas dos velhos carnavais, já montei bateria, fiz blocos, me fantasiei de muitos personagens, desfilei na Sapucai pela verde-rosa, Estação Primeira de Mangueira, e acho o carnaval a melhor festa popular do mundo. Já brinquei sem dinheiro, sem tomar um gole, sem fantasiar, mas nunca sem a companhia uma bela colombina. Neste carnaval, seguindo a tradição da cidade de Maceió que tem as melhores prévias carnavalescas, devo ir em todos os bailes de clubes e de ruas e se tiver uma bandinha animada numa esquina, num bar ou em qualquer lugar, dou uma paradinha para ouvir, tomar uns goles e dar uma canja. Agora entendeu, né! Amo carnaval! Hugo Taques – Janeiro 2020

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